quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Mudança de endereço

Pessoas queridas, 2012 chegando pediu-me que transportasse as comunicações deste blog para o meu outro, "palavra" (http://flaviavirginia-palavra.blogspot.com). Vamos? Sugiro que também transfiram seus "seguimentos" para lá.

Beijos 

domingo, 1 de maio de 2011

O reality show do Vaticano

Parece que a urgência dos nossos dias, reforçada pela grande proporção de vida virtual que levamos, em que um clique resolve vários problemas, chegou ao Vaticano, na melhor forma reality show - talvez devesse dizer, na sua melhor velocidade.


Não é que João Paulo II, aquele papa que morreu em 2005, teve hoje sua beatificação e está prestes a ser canonizado, rompendo com todos os trâmites regulares da Igreja, digamos assim, numa beatificação-expressa? Logo de sua morte, saíram à praça São Pedro fiéis com a faixa "santo subito", que quer dizer santo logo, em italiano. Pois a mim parece mais que a melhor tradução seria a mais literal: é o não é um bocado súbita, essa beatificação concedida em menos de 5 anos, contradizendo o cânone? Onde está a pressa? Não que eu seja versada em nenhum desses assuntos, aliás, nem cristã sou, apenas curiosa, eu diria, no fato de os trâmites no Vaticano serem lentos como a lesma, para umas coisas, céleres como o salário, para outras.

Tome-se como exemplo (e um pouquinho de provocação, que ninguém é de ferro, muito menos eu) a lentidão do Vaticano em pedir desculpas aos negros do mundo inteiro. Este peso recaiu mesmo sobre o papa João Paulo II, coitado. Desculpou-se pelo que não fez e, no entanto, pelo tom com que falou, notava-se logo que era apenas mais uma fala numa das várias línguas que não dominava, mas esboçava. Eu, pessoalmente, prefiro minha parte em dinheiro.


Já o papa novo, Bento XVI, não se sentiu suficientemente pressionado a desculpar-se pelo mal-estar causado por suas infelizes palavras sobre o Islam - esse papa deve achar que quem manda é mesmo ele, mas, como ainda é novo no poder, engolimos.


Talvez não seja assim, entretanto. Vai canonizar em tempo recorde o seu antecessor, quebrando todas as regras e, até onde eu perceba, sem nenhum motivo concreto. Ouvi dizer que conta muito uma categoria chamada "fama de santidade". Imagine que loucura, canonizar alguém nessa base? Ainda por cima hoje, quando o celebrismo é o vírus mais universal que existe - aliás, pelo que se vê, chegou até o Vaticano.


Até parece que essa beatificação foi organizada por um marketeiro. Depois dela é que virá a canonização - por enquanto, o papa será beato, o que quer dizer que só poderá ser celebrado em Roma e em Wadowice. Então, há material de sobra para manter os fiéis "ocupados", isto é, dando audiência.


Enfim, será que esses acontecimentos estão a nos mostrar o cupinzeiro que corrói a fé católica? Pode ser que sim. Não quero parecer mais enxerida que o normal, mas penso que melhor faria o papa se tivesse conhecimento de uma simples frase brasileira: muita calma nessa hora.


Ou não.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Aula de matemática 1 - Japão

Problema 
Monte uma equação com as variáveis abaixo:
a) reatores nucleares tidos como os mais seguros do mundo (se assim não fossem, supõe-se, não teriam permissão da "comunidade internacional" para existir);
b) minúsculos tremores - displiscentes espreguiçamentos, eu diria - da Terra, planeta que nos alberga gratuitamente;
c) reatores demonstrando sua imensa fragilidade, fazendo escapar toneladas de material radioativo incontinente extremamente danoso à saúde humana;
d) dirigentes anunciando aos cidadãos para usarem não equipamentos ultramodernos-ficção-científicos, mas toalhas molhadas no rosto, como qualquer sociedade dita primitiva faria com a fumaça de um foguinho qualquer;
e) material radioativo sendo jogado ao mar (mar: aquela coisa que vai a todos os lugares, pertencendo, portanto, a todos, e não apenas aos japoneses);
f) dirigentes da burocracia e da corporatocracia desdizendo-se, contradizendo-se e outras milongas mais na tentativa desesperada de justificar o injustificável;
g) "comunidade internacional" não se organizando para discutir a finalidade daquilo que não podemos dominar - no caso, reatores nucleares X Terra
h) pessoas (coisa diferente de "comunidade internacional", que é mais um chavão do que algo concreto, pois eu, embora terrestre, nunca fui consultada nas decisões dela) também não articuladas em torno de algo que não seja as notícias, isto é, preferindo ouvir notícias do que "ser informações" (informação: aquilo que forma).

De posse dessas variáveis, monte uma equação com final feliz SEM FAZER USO DE UMA PARTICIPAÇÃO CIDADÃ EFETIVA.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Balanças...

Não resisto às notícias e hoje vou dar meia palavrinha sobre um comentário no Estadão Online, a partir da matéria "Kadafi aceitou plano de paz proposto por Chávez, diz Al-Jazira".


3 de Março de 2011 | 16h22
É mas tio Sam (EUA) bombardeou casas,hospitais,escolas,mesquitas etcc...que matou um monte de inocentes e nunca ninguem nem comentou em punilos. Seus inimigos foram presos e muitos mortos em tribunais, e o tio Sam que ordenou todos esses ataques a inocentes parecendo que estavam bricando de batalha naval onde na sorte tentavam acertar o alvo. E o grande presidente dos Estados Unidos América está la com seus cães cheirando seu traseiro,escolhendo qual país mesérento vai atacar agora, que pelo o jeito vai ser a Líbia,!seu exercito vai metralhar o povo como kadafi fez, e adivinha quem o tribunal internacional vai punir somente? Kadafi é claro pois o resto dos paises ou tem medo ou são um bando de puxa saco dos EUA. e como nos filmes o EUA vai sair como salvador do mundo. ah que tal fazermos um bolão! Quem vai ser enforcado primeiro? Kadafi ou Julian Assange?"


Cuidando de não ter pressa, adorei a pergunta, pelo que ela contém de irônico, por um lado, e pelo que ela representa de perigo de julgamento, por outro. Claro que Qadhafi não pode ser considerado na mesma balança que Assange. Mas a ironia está em que a política exterior dos Estados Unidos, sim, os pesa na mesma balança, os igualiza! É ou não é política externa à base de show de mágica?

PS: Eu queria falar também sobre o Chávez, mas vai ser muita ironia para um dia tão chuvoso.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Vazio político




A imprensa noticiou em larga escala mais um escândalo nacional: o deputado federal Tiririca foi escolhido para integrar a  Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados. O já cansado, mas insistente (ainda) leitor dirá: mais essa? E agora? Onde estamos, para onde vamos?

Essa é mesmo a questão que quero trazer. Já não se trata tanto de saber "quem somos" ou "de onde viemos". Parece que para nós, confusos latinoamericanos, só restam perguntas como "para onde vamos". É uma pena, pois essa pergunta ganha maior validade quando nos é possível questionar, primeiro, "de onde viemos". Digo isso porque, se não fizermos a pergunta correta, fica impossível obter alguma resposta que preste. Por exemplo, aqui, o problema não é o Tiririca. É a complexa rede que leva a Tiririca, ou melhor, a que tiririquemos a nossa política. Como isso acontece? Nós, eu e vocês, mortais leitores, deveríamos saber que, para que pudéssemos fazer jus à origem da idéia de democracia ("de onde viemos"), deveríamos nos preparar para assumir cargos políticos.

No nosso caso, desconhecendo a origem, confudimos democracia com instrumentos democráticos e os operamos sem muito traquejo. Leve-se em conta também que, em matéria democrática, somos um bebê - nem temos 30 anos ainda, isto é, apenas uma geração. Desta maneira, tiriricaremos ainda muito nossos instrumentos, não porque o Tiririca em si seja mau, mas porque, em não sendo ninguém de importância política, consegue toda a representatividade desse vazio de afazeres políticos que nos aguarda.

O Tiririca, paradoxalmente, tem essa legitimidade que só um instrumento democrático mal utilizado poderia dar. O ideal seria olhar este exemplo para construir as pontes que faltam, arar a terra e plantar as sementes para um sistema genuíno, advindo de questionamentos múltiplos e complexos, sem dúvida, mas que pudessem escapar ao vazio de co-responsabilidade que nos assola. Lembrando sempre que este vazio tem se tornado comum também com a ajuda da tecnologia, que nos permite a informação e a opinião, ambas, no geral, rebaixadas à categoria de bla-bla-blá, uma vez que o fazemos desde o recôndito de nossos computadores, sem nem ao menos meter a cara na janela, quem dirá assumir uma postura política de ação e emancipação.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Quando foi que violência trouxe justiça?



Esta notícia que encontrei no Estadão é tão flagrantemente  escandalosa que não resisti em reproduzir um trecho aqui para tecer um ou dois comentários. Trata-se de uma parabenização do presidente de Israel, Shimon Peres, ao (por enquanto ainda) presidente do Egito, Hosni Mubarak, uma vez que o Egito tem sido aliado de Israel desde 1979. As aspas referem-se à reportagem, não sendo uma fala de Shimon Peres.

“O Egito foi o primeiro país árabe a assinar um acordo de paz com Israel, em 1979, quando o presidente egípcio era o general Anwar Sadat. Mubarak assumiu o poder depois do assassinato de Sadat, em 1981; além de respeitar o acordo de paz, ele também passou a cooperar mais ativamente com os EUA e com Israel - não apenas com a tortura de suspeitos de terrorismo encaminhados pela CIA norte-americana, mas também com o bloqueio da fronteira entre o Egito e o território palestino da Faixa de Gaza, especialmente durante a ofensiva israelense de dezembro de 2008, quando o Egito impediu a entrada de ajuda humanitária em Gaza.”
<http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,presidente-de-israel-elogia-mubarak,675744,0.htm>Último acesso: 06.02.11

Impossível não notar como um erro gravíssimo gera, em sua conseqüência, seqüelas sempre graves. Então Mubarak cooperou com EUA e Israel (questões de política externa à parte, para não tornar meu comentário tão longo) via tortura? E também entra na faixa da cooperação o impedimento da ajuda humanitária a Gaza em 2008? E semelhantes frases vão descritas assim, sem mais? Que perigo! Que perigo quando nós utilizamos as palavras sem nelas buscar seu significado mais nobre! Qual o perigo? É o de acreditarmos, como no exemplo, que  torturar e impedir a ajuda podem ser sinônimos de cooperar. Neste caso, o que resta mesmo para a verdadeira cooperação?

Acho que o que está acontecendo é que estamos vivendo em universos sobrepostos, onde “liberdade” quer dizer usar os valores de acordo com a ocasião, usar a política  de acordo com os acordos, e usar, como forro para ambos, as pessoas.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Entenda a crise no mundo árabe

Interessei-me em acompanhar algumas análises sobre a chamada "crise no mundo árabe". Achei mais digno de nota do que tudo o fato de as análises terem como pano de fundo a pergunta: "o que os Estados Unidos vão fazer?"

Penso, no entanto, que a maior dificuldade em se lidar com essa categoria política à qual se habituou intitular "mundo árabe" é... a própria categoria política "mundo árabe", às vezes inclusive "mundo islâmico", mesmo que indevidamente. Após o artigo "O Choque de Civilizações" de Samuel Huntington, na revista Foreign Affairs, em 1993, ficou bem tentador categorizar pessoas em blocos grandes, mais manuseáveis tanto do ponto de vista da análise academicista quanto da política externa. Claro que, dentro de um país, ninguém está lá, concordando diariamente com essa classificação, pois, se assim fosse, eu não me pensaria Flavia, e sim pessoa do risco-país 184 (valor do dia 28 de Janeiro de 2011, segundo fonte na internet).

A questão é que Flavia é um conglomerado de forças diversas, que tanto sofrem pressão de elementos externos que não encontram compatibilidade suficiente para serem englobados no conglomerado principal, quanto de internos. Os mais coesos formam algo que se pode chamar "nordestina", "cidadã paulistana", "judia", etc. E ao conjunto total dá-se o nome de Flavia.

Da mesma maneira é o Brasil e os brasileiros, que, como bem sabemos, mas parecem desconhecer por completo vários analistas estrangeiros, não somos "alegres", "fraternos", "cordiais", "criativos", "violentos", "bons de bola", "musicais", nem nada disso. Se assim fosse, nossa música não passaria pela triste crise pela qual está passando, ou nosso futebol, e as empresas que eu mesma atendo estariam exportando criatividade, em vez de reclamar sua falta.

Acredito que, posto assim fica mais fácil de ver o ponto que quero apresentar: as diferenças apontadas são superficiais em relação ao que é uma pessoa humana, um grupo de pessoas, comunidades muito discrepantes vivendo sob a égide de uma instituição que busca ser um território, uma nação e um país simultaneamente.

No caso do Islam, entretanto, o buraco é mais embaixo. Nos sentimos no direito de, em não sabendo nada sobre nenhum daqueles países que adotaram esta religião, cultivar, se não sentimentos, pelo menos sensações relativas a eles, quase sempre desagradáveis, visto que são fruto da incompreensão absoluta misturada com uma certa preguiça em procurar saber, diga-se de passagem. Então, os jornais, felizes com alguma notícia bombástica para dar, dispõem manchetes do gênero "Entenda a crise dos países árabes" porque, afinal, árabe/muçulmano é só uma categoria política que não leva em consideração subcategorias como acesso à informação, nível de escolaridade, acesso à saúde, idade, sexo - ítens também eles categóricos, mas que ao menos indicam diferenças que permitem, por fim, sabermos que estamos falando de pessoas, e não de um bloco manipulável qualquer, a quem este outro bloco incrível chamado "comunidade internacional" (o que será isso, pergunto-me?) vai decidir se invade e mata rápido, se embarga e mata devagar.